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segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Toca o barco, ninguém viu nada - Guilherme Fiuza

Revista Oeste

O pessoal só estava amontoado nas seções de votação para conversar sobre as maravilhas do Butão. Alto-astral, ninguém desconfiando da competência do TSE 

Fila de eleitores em São Paulo para votar, na manhã de domingo 2 de outubro de 2022 | Foto: Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo 

Fila de eleitores em São Paulo para votar, na manhã de domingo 2 de outubro de 2022 | Foto: Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo  

Foi tudo normal na eleição. A normalidade começou na véspera, com a notícia de que Marcola, o líder do PCC recluso num presídio de segurança máxima, preferia Lula na disputa com Bolsonaro. No que a informação surgiu na imprensa, todos esperaram que os checadores aparecessem triunfais para dizer que era fake news. Eles não apareceram. Tudo normal.

Aí surgiu a dúvida: o ministro Alexandre de Moraes não tinha proibido que se fizesse referência à ligação entre PCC e PT? E agora? Será que o Marcola seria investigado no inquérito das fake news?

A dúvida não abalou a burguesia cheirosa (ou nem tanto) que estava nos seus instagrams fazendo a apologia do voto em Lula por um mundo melhor.  

Já Marcola defendia o voto em Lula como uma espécie de mal menor classificando o ex-presidente como um “pilantra”, de acordo com os áudios atribuídos a uma interceptação telefônica da Polícia Federal.

De cara ficou estabelecida, então, a diferença básica entre o burguês que dizia votar em Lula para defender a democracia e o criminoso encarcerado: o segundo era mais sincero.

Assim a frente ampla que tinha Lula como favorito foi crescendo: Datafolha, UOL, CNN, Ipec, BTG, Quaest, William Bonner, Renan Calheiros, Tiririca, Marcola e outros expoentes da sociedade. Tudo normal, mas com um enigma: se Geraldo Alckmin e Marcola queriam que Lula voltasse ao local do crime, por que o PT tinha escolhido o mais fraco dos dois para vice?

São os mistérios da política, não se pode compreender tudo o tempo todo. Mas havia outros sinais estranhos no ar.

Na manhã seguinte, o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, apareceu nas redes sociais desejando a todos um domingo tranquilo de votação. Ninguém entendeu nada. 
Será que as diretrizes da Justiça Eleitoral tinham mudado no dia do pleito? O eleitor sentiu falta das ameaças de ser preso em flagrante e levado para a delegacia se tumultuasse, mentisse, desinformasse, não entregasse o celular, etc. O sotaque democrático de Alexandre deixou a população insegura. Não se mudam as regras do jogo em cima da hora.

Aí veio outro sinal preocupante. Os democratas de auditório que já haviam categorizado o verde e amarelo como coisa da Cuscuz Clã e festejado subcelebridade pisoteando a bandeira brasileira em Nova Iorque de repente começaram a falar em votar com a camisa da Seleção Brasileira — aquela amaldiçoada como cafona, fascista e símbolo da corrupção na CBF. Muito estranho.

Que nenhum estraga-prazeres venha dizer que os “erros” grotescos das pesquisas não são erros, e sim mentira deslavada

Mas logo as coisas se esclareceram: só deveria vestir a maldita camisa da CBF quem colocasse nela o número do candidato do Marcola. Grande sacada

Até porque o 13 também representava o número de anos que durou o assalto petista ao país — ou seja, uma bela homenagem ao bom ladrão. E a essa altura o eleitor consciente contra o fascismo poderia fazer tanto o “L” quanto o “M”.

A normalidade ficou mais normal ainda quando Alexandre de Moraes corrigiu sua própria omissão e censurou as matérias sobre o caso Lula-Marcola. Isso trouxe uma imediata sensação de alívio ao eleitorado, que já estava apreensivo com a demora da tesoura democrática do presidente do TSE. A insegurança jurídica se transformou imediatamente em confiança — fazendo a Bolsa subir e o dólar despencar em pleno domingo.

No mercado é assim mesmo: quando a notícia é boa demais, os indicadores não querem saber de descanso. É bem verdade que restou uma dúvida: o que exatamente Alexandre de Moraes tinha censurado?

Teria sido a imprensa ou a Polícia Federal? — considerando-se que a PF não tinha negado a autenticidade do áudio
Outros especialistas em mordaça levantaram a hipótese de a censura ter sido decretada contra o próprio Marcola — o que seria uma revolução, considerando-se que nunca antes na história deste país uma autoridade tinha chegado à perfeição de regular o que um bandido conversa com outro.
 
Nessa linha, as especulações foram se detalhando. Alexandre de Moraes teria censurado Marcola ou só a sua preferência por Lula? 
Ou será que o que tinha sido censurado era o carinho entre o PCC e o PT? 
Essa hipótese era a menos provável, porque o xerife do amor jamais iria agir contra uma conexão afetiva.  
Mas afinal, o que Alexandre de Moraes tinha censurado?
 
Segundo especialistas em jogadas eleitorais, nenhuma das hipóteses acima estava correta
Na verdade, o presidente do TSE teria tão somente baixado uma medida emergencial para que o eleitorado do bom ladrão pudesse votar sem culpa. 
Faz sentido. Realmente seria muito incômodo para um democrata educado e limpinho sair de casa para votar no mesmo candidato do chefão do PCC. Censura muito bem-vinda. O que os olhos não veem, o coração não sente.

A votação no Brasil correu normalmente, com eleitores enviando seus parabéns a Luís Roberto Barroso, Luiz Edson Fachin e Alexandre de Moraes por terem assegurado que o nosso sistema eleitoral é exemplar. As multidões em fila que se formaram em todo o território nacional foram absolutamente normais — o pessoal só estava amontoado nas seções de votação para conversar sobre as maravilhas do Butão. Alto-astral, ninguém desconfiando da competência do TSE.

Veio a apuração e tudo continuou normal. Pausas, soluços, progressões inverossímeis e desproporcionalidade entre o voto presidencial e as demais escolhas — comprovando o ecletismo da mentalidade do eleitor, sem preconceito nenhum para votar em todos os candidatos do Bolsonaro para o Congresso e cravar Lula para o Planalto. É a festa da democracia.

Que nenhum estraga-prazeres venha dizer que os “erros” grotescos das pesquisas não são erros, e sim mentira deslavada — devidamente embalada pela imprensa. Não estraguem a festa. 
Por coincidência, os propagadores dos “erros” estiveram sempre alinhados com o TSE para impedir que a eleição pudesse ser auditável. 
Essa palavra é tão indesejável e antidemocrática que até o corretor do Word sublinha como erro. Transparência é golpe.

Parabéns, Brasil. O anabolizante do bem foi um sucesso. Agora decide aí se vai querer continuar brincando disso no segundo turno.

Leia também “L de Lava Lula”

Guilherme Fiuza, colunista - Revista Oeste

 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

O partido da Covid saiu do armário

Guilherme Fiuza

Jane Fonda disse que a covid é "um presente de Deus". A estrela do cinema americano e mundial disse mais: essa dádiva divina-viral é, segundo a diva, um presente "para a esquerda". A declaração de Jane Fonda é muito oportuna para esclarecermos – esperamos que de uma vez por todas – um grande mal-entendido dos tempos atuais. É o seguinte: se você é um burguês cínico e egoísta, se dizer "de esquerda" não te dá um charme altruísta, ok? Você continuará sendo só um burguês cínico e egoísta – que, no caso, torce por uma doença para se fantasiar de empático. Estamos entendidos? Para sempre? Que bom! Então agora podemos continuar a conversa mais relaxados.

Jane Fonda falou por muita gente. Dir-se-ia que a mega atriz trouxe a chave do armário – de onde agora podem sair todos esses quarentenados da empatia cenográfica. Até que enfim. Seis meses desses patrulheiros tarados chamando todo mundo de assassino estava um pouco demais. E quando alguém dizia que eles torciam pelo vírus? Tinham que simular aquela indignação torrencial, o que dá um trabalho danado e cansa a pessoa – mesmo ela estando sem fazer nada.

Acabou o problema. A elegia patológica foi assumida por Jane perante os quatro ventos, libertando essa gente hipócrita e enrustida
Podem torcer sem medo! 
Podem continuar fingindo que o pior está por vir para manter as escolas fechadas para sempre! 
Quem é que precisa de estudo a essa altura, minha gente? 
Todo mundo no clube da empatia já é culto, remediado e com o boi na sombra. Que nem a Jane. Escola hoje em dia é coisa pra pé rapado – essa gente que se aglomera em ônibus sabe-se lá por que, nessas cenas horríveis que felizmente não são visíveis da quarentena vip.
O coronavírus é um presente divino pra todo mundo que está com a vida ganha e só precisa manter o seu poderzinho – de preferência com bons pretextos para controlar a vida alheia se fantasiando de ético. É ou não é uma dádiva, essa Covid? Foi molezinha fazer vista grossa para as estatísticas embaralhadas. 
Saiu baratíssimo jogar na conta da Covid todas as vítimas de outras doenças que pegaram coronavírus já condenadas. 
Contágio bom é contágio fácil, diria algum empático de Hollywood. 
E cada vez que alguma família denunciava atestado de óbito para Covid em parente vitimado por outras doenças, a patrulha da verdade suprema bradava: fake news! Negacionistas! Terraplanistas! 
Os terraparadistas tomam como ofensa pessoal qualquer desafio ao seu lockdown mental. Seita é seita.
Só não venham mais com esse papo de esquerda. Burguês egoísta é burguês egoísta – e já combinamos que agora vamos chamar as coisas pelos seus nomes. "A esquerda" como etiqueta de homem sensível, mulher consciente, intelectual empático e alma solidária está revogada pelo teorema covidal de Jane Fonda. 
E agora? Agora vamos fazer a conta dos prejuízos humanos que a ditadura viral de vocês causou.

Guilherme Fiuza, jornalista - Gazeta do Povo - Vozes


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Comissão da Verdade ultrapassa o ridículo do ridículo



Comissão da Verdade relatará agressões a homossexuais na ditadura
Recomendação será de indenizar quem foi perseguido pelos militares por ser gay
Cerca de 20 páginas do relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que será entregue à presidente Dilma Rousseff no próximo dia 10, descreverá uma série de violações aos direitos dos homossexuais cometidos pela ditadura militar. A inclusão aconteceu na fase de conclusão do relatório, depois de longa discussão entre os integrantes da comissão. Alguns eram contrários à existência de um capítulo específico para tratar do assunto e advogavam por um texto único que unisse a violação contra homossexuais, mulheres e crianças. Foi voto vencido. [obviamente que tinham que ser voto vencido; afinal, não tem o menor sentido juntar homossexuais com mulheres (claro,  as não homossexuais) e crianças.]

O trabalho, organizado pelo brasilianista americano James Green, da Universidade Brown, e por Renan Quinalha, assessor da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, mostra como a homossexualidade foi objeto de perseguição, pois era confundida com subversão e considerada um agravante para os presos políticos.

No texto enviado à CNV consta que “agentes do SNI e da Polícia Federal incluíam, nos seus relatórios sobre subversão, detalhes sobre pessoas que relacionavam diretamente o comportamento sexual ao perigo que representavam ao Estado. Detalhavam assim essas pessoas vistas como ameaçadoras: ‘Consta ser pederasta' ou é ‘Elemento homossexual passivo’”.
Não houve uma política de Estado para exterminar os gays, mas a homofobia era sim uma prática institucionalizada pelo regime — afirmou Renan Quinalha, cujas conclusões foram recém-lançadas no livro “Ditadura e homossexualidades”.

O caso mais ruidoso apontado pelo trabalho foi o expurgo de homossexuais do Ministério de Relações Exteriores comandado pelo então ministro Magalhães Pinto, em 1969. O fato foi relatado pela primeira vez pelo GLOBO há cinco anos. De acordo com documentos sigilosos do Arquivo Nacional, Magalhães Pinto determinou um “rigoroso exame dos casos comprovados de homossexualismo de funcionários do ministério suscetíveis de comprometer o decoro e o bom nome da casa, tendo em vista o possível enquadramento dos indiciados nos dispositivos do Ato Institucional nº 5”.

Nos casos em que os investigadores tiveram dúvida sobre a orientação sexual dos investigados, o chefe do Serviço de Assistência Médica e Social do ministério sugeriu a realização de exames proctológicos. Por “prática de homossexualismo, incontinência pública escandalosa”, sete diplomatas foram afastados do Itamaraty. Outros 10 constam como suspeitos. [o servidor público tem que ter dignidade; e tal requisito, importante para qualquer função pública, se torna mais essencial se o funcionário representa o Brasil, exerce função diplomática, ainda que em nível subalterno.
A dignidade é inerente à função pública – só de 2003 para cá é que a função pública passa por um processo de aviltamento que só será encerrado com o expurgo de toda a esquerda nojenta, a petralhada corrupta.]— Supomos que tenha acontecido perseguição em outros ministérios, mas será preciso mais investigação — diz Quinalha. 

Entre as recomendações da CNV está a indenização dos perseguidos pelo regime militar por serem homossexuais. Militantes do movimento gay elogiaram a iniciativa, embora nem todos concordem com a visão de Quinalha de que a homofobia fosse política de Estado. — O preconceito era arraigado na sociedade. Assim como a direita achava que ser gay era um atentado aos bons costumes, para a esquerda a homossexualidade era tida como um vício pequeno burguês — afirmou João Silvério Trevisan, um dos jornalistas responsáveis pelo primeiro jornal gay brasileiro, “O Lampião da Esquina”, que circulou entre 1978 e 1981.

Fonte: O Globo