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sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Globo inquieta - Revista Oeste

Cristyan Costa

[O FIM SE APROXIMA e será mais devastador que o da extinta TV Manchete.]

Demissões de jornalistas e artistas, dívida bilionária, queda de lucros e tombo de audiência expõem as dificuldades da emissora mais famosa do Brasil 

Trabalhar na Globo sempre foi o sonho da maioria dos estudantes de jornalismo. Eles eram assediados por familiares que esperavam um dia vê-los na TV segurando um microfone da emissora. Para quem já estava no ramo, ocupar cargos de importância na emissora era como um alpinista alcançar o pico do Monte Everest. A empresa cresceu para um status de conglomerado, reunindo, além da televisão, jornais, rádios e sites. Por anos, a Globo se manteve líder em vários desses segmentos.
 
 
Ilustração: Revista Oeste
Ilustração: Revista Oeste

Antes da chegada da internet, grande parte dos brasileiros acompanhava a programação da Globo e assistia religiosamente ao Jornal Nacional (JN). O que saía no JN era tido como a verdade absoluta. Logo depois, passava a novela das 21 horas, e a audiência era solidamente fiel no país inteiro. A rotina se repetia diariamente. A Rede Globo parecia eterna e indestrutível.

Mas as coisas mudam. A internet tirou o poder da TV tradicional. 
Os serviços de streaming se multiplicaram e roubaram boa parte da audiência. 
Ligar na Globo deixou de ser uma atitude automática. 
E as coisas só pioraram quando a emissora optou por ser um instrumento político, primeiro tentando derrubar o ex-presidente Michel Temer e agora encarnando uma oposição obsessiva ao presidente Jair Bolsonaro, numa atividade puramente política e descolada da realidade. 
O venerável Jornal Nacional perdeu seu maior patrimônio: a credibilidade.

Com a alta do dólar, a dívida da Globo passou de R$ 3,47 bilhões para R$ 5,4 bilhões

 

A nova realidade da Globo é o encolhimento.  
Artistas de novela e dramaturgos consagrados deixaram de renovar contratos. 
Funcionários veteranos, considerados intocáveis, estão sendo demitidos. A rede está perdendo direitos de transmissão, despesas estão sofrendo tesouradas impiedosas, sem contar a dívida bilionária. 
O canal de TV mergulhou na pior crise de sua história.

Queda de lucros e dívida bilionária
Os números são claros. O aumento de despesas e a queda na receita com publicidade fizeram o lucro líquido do Grupo Globo cair de R$ 752,5 milhões, em 2019, para R$ 167,8 milhões, em 2020. Foi uma queda vertiginosa de 78%. Com a alta do dólar no ano passado, a dívida da Globo passou de R$ 3,47 bilhões para R$ 5,4 bilhões.
Para piorar, a emissora deixou de contar com boa parte da ajuda que recebia do governo federal, o que explica em boa parte sua fúria oposicionista. De 2003 a 2019, nas gestões de Lula, Dilma e Temer, a Globo recebia, em média, R$ 450 milhões por ano para veicular propaganda estatal. 
Segundo levantamento do portal Terra, com base em dados da Transparência, o total foi de R$ 7,2 bilhões. Ao longo dos três anos de Jair Bolsonaro no Planalto, a Globo deixou de receber entre R$ 600 milhões e R$ 750 milhões em verbas publicitárias.

Apesar das dívidas, a emissora informou que tem caixa suficiente para honrar os compromissos: R$ 13,6 bilhões em investimentos.

“O passado não volta mais”
Na tentativa de driblar a agonia financeira e reduzir despesas, a Globo apelou para demissões no jornalismo. Nessa categoria estão os veteranos Alberto Gaspar (São Paulo) e Ari Peixoto (Rio de Janeiro), que deixaram o quadro de funcionários da TV no início do mês passado. Ambos tinham contracheques gordos. Gaspar trabalhou por quase quatro décadas na empresa, atuando como repórter e correspondente internacional. Em 34 anos de casa, Peixoto ocupou as mesmas posições que o colega. As cartas de despedida dos dois profissionais revelaram clima de “velório” nas redações da Globo, com a perspectiva de novos cortes.

Poucas semanas antes, a emissora demitira outros profissionais com a folha de pagamentos elevada. Fernando Saraiva, que estava na empresa desde 1999, foi um deles. O repórter especial Roberto Paiva, idem, além do produtor Robinson Cerântula. No fim de outubro, a Globo ainda desligou 20 profissionais de sua equipe na capital paulista, entre eles jornalistas, produtores, cinegrafistas, operadores de áudio e outros funcionários da equipe técnica. Não foi o suficiente. A empresa tem uma lista grande de degola e está demitindo a conta-gotas, com a finalidade de evitar conflito com sindicatos, noticiou o portal IG.

Nesta semana, a apresentadora do programa É de Casa, Cissa Guimarães, foi surpreendida com o aviso de que estava sendo desligada da Globo. O motivo: redução de custos. Cissa trabalhou 40 anos na emissora, participando de novelas e programas, como o Video Show. Seu salário chegava a R$ 100 mil, noticiou o portal Observatório da Televisão.

A dispensa mais simbólica e surpreendente foi a do casal Tarcísio Meira e Glória Menezes, demitidos em setembro de 2020 após 44 anos de casa. “Nos últimos anos, temos tomado uma série de iniciativas para preparar a empresa para os desafios do futuro”, salientou a Globo, em um comunicado. “Com isso, temos evoluído nos nossos modelos de gestão, de criação e de desenvolvimento de negócios.” O tom do documento era o mesmo do endereçado ao dramaturgo Aguinaldo Silva, que, em março daquele ano, recebera em casa o aviso de que a parceria terminara. Ele garante que não guarda mágoas: “A Globo me deu muito. E eu dei muito para eles.”

Para Aguinaldo, a situação da empresa e a de outras do ramo é reflexo das transformações pelas quais passa o mercado. “Os tempos são outros. As pessoas agora têm uma infinidade de escolhas de novas mídias, como o streaming.” Segundo ele, as adaptações têm de ocorrer por parte dos que quiserem sobreviver à atualidade e se preparar para o futuro. “As novas gerações não estão interessadas em gêneros de novelas que duram meses, histórias que se cruzam demais. Querem algo imediato e profundo. O passado não volta mais.”

A dança das cadeiras
Desligado da companhia neste ano, Silvio de Abreu, ex-diretor da Teledramaturgia da Globo, criticou as várias demissões que ocorreram ao longo dos últimos meses. Segundo Abreu, todas as vezes que uma dispensa era anunciada, ia parar no Departamento de Relações Humanas (RH). “Isso foi uma resolução que surgiu quando a Globo fundiu as várias empresas do grupo e resolveu enxugar seus quadros”, relatou, em entrevista publicada pela revista Veja, em outubro. “Fui totalmente contra. Sempre que alguém era dispensado, eu ia ao RH para discutir”, lembrou. “Com o enxugamento, esses profissionais estão na praça e vão acabar na concorrência.”

Embora não tenha sido demitido, o apresentador Fausto Silva se antecipou ao abate e deixou a Globo em junho, pouco antes de terminar seu contrato. Ele irá comandar um programa na Band, a partir de 2022. Em dezembro, será a vez do jornalista Tiago Leifert se despedir da casa que o abrigou por 16 anos. “Tem tanta coisa que quero aprender, quero estudar, cuidar da família”, disse Leifert, em entrevista ao Mais Você, ao justificar com antecedência por que sairá da Globo. “Era essa escolha que eu tinha que fazer. A missão aqui está cumprida.” Os atores Lázaro Ramos, Ingrid Guimarães, Reynaldo Gianecchini, Vera Fischer, Antônio Fagundes, Débora Nascimento, entre outros, também não quiseram renovar seus contratos.

A “dança das cadeiras” ocorreu ainda no alto escalão da emissora, tentativa vista pelo mercado como uma forma de “pôr ordem na casa”. O empresário João Roberto Marinho será o novo presidente do Grupo Globo, formado pela Editora Globo, a Globo, o Sistema Globo de Rádio, a Globo Ventures e a Fundação Roberto Marinho. Diretor de canais da emissora, Paulo Marinho vai assumir a presidência da Globo.

Segundo a empresa, as mudanças já estavam planejadas e fazem parte “da jornada de profunda transformação digital iniciada em setembro de 2018”. A transição total será concretizada a partir de fevereiro de 2022. O atual diretor da Globo, Jorge Nóbrega, ganhará um cargo no conselho editorial da companhia, responsável por dar o tom no jornalismo do conglomerado de mídia.

Jorge Nóbrega atua nas empresas do Grupo Globo desde 1996. Em 2017, assumiu a presidência do grupo, sendo o primeiro presidente a não fazer parte da família Marinho. Com a sua saída, João Roberto Marinho estará à frente do Conselho de Administração e também do Grupo Globo. João Roberto Marinho seguirá também no comando do Conselho Editorial e do Comitê Institucional, que tem o papel de acompanhar e propor linhas de atuação para as relações institucionais do Grupo Globo.

Tombos de audiência
Nenhuma mudança administrativa vai resolver a situação da empresa se os seus principais problemas não forem enfrentados. O jornalismo sem pluralidade, as novelas contaminadas pelo politicamente correto, com enredo pobre e elenco de segundo escalão, a linha de shows estagnada em fórmulas ultrapassadas, a militância esquerdista assombrando até as transmissões de futebol tudo isso está cobrando um preço nos índices de audiência.

Nem o Jornal Nacional foi poupado pelo público. Depois de atingir médias diárias acima de 35 pontos em 2020, no auge da cobertura da pandemia de covid-19, o JN viu 15% de seu público desaparecer. Os índices dos primeiros seis meses deste ano são os piores desde 2015. A média semestral foi de 25 pontos.

No Painel Nacional de Televisão (índice que mensura a audiência das 15 maiores regiões metropolitanas do país), a emissora teve o pior ibope de outubro desde 2015 ao registrar, por dois meses consecutivos, marcas negativas de audiência.

De acordo com os dados consolidados pelo TV Pop, a emissora cravou 10,79 pontos de média no acumulado das 24 horas nos 31 dias de outubro. Perdeu ainda mais telespectadores em relação ao acumulado de setembro — mês em que a Globo registrou média de 10,94 pontos e disse adeus a quase 2 milhões de pessoas que a acompanhavam. Para ter ideia, o índice de setembro foi menor que o obtido pelo canal em dezembro de 2020 (11,17 pontos), quando há menos televisores ligados.

O público não se animou com o novo Domingão do Huck. Estreou em 5 de setembro deste ano, com 19,1 pontos de audiência. Em 10 de outubro, registrou 12,7 pontos — uma queda de 33,5% em menos de dois meses. O número fica bem abaixo da média de 18 pontos do apresentador Faustão, que teve seu melhor momento em maio, com 21 pontos de audiência.

Fragmentação e pluralidade de ideias
O mesmo clima de decadência aparece num território em que a Globo era absoluta há poucos anos: os esportes. Perdeu a Fórmula 1 para a Band. Perdeu a transmissão do torneio Libertadores das Américas para SBT, Facebook, Fox Sports e Conmebol TV. Já não tem mais a Copa nem a Recopa Sul-americanas e a exclusividade dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2022, a ser realizada no Catar, nas plataformas digitais.

As transmissões da elite do tênis passaram para a ESPN. A Globo também já não transmite a Liga dos Campeões, que se transferiu para o TNT e o SBT. O Campeonato Carioca de futebol está fora da grade, assim como o Campeonato Baiano. Como se não bastasse, a Justiça de São Paulo manteve a multa de cerca de R$ 9,9 milhões aplicada pelo Procon à Globo por considerar que a emissora não informou os assinantes do canal Premiere sobre a redução na quantidade de jogos transmitidos do Campeonato Brasileiro de 2019.

Em contrapartida, emissoras como a Jovem Pan (JP), que conseguiu um canal de TV, surpreenderam na audiência em sua data de estreia — em 27 de outubro. A JP conseguiu superar a CNN Brasil, a BandNews e a Record News nos números da TV paga e só ficou atrás da GloboNews durante todo o dia. A Jovem Pan News marcou 0,2 ponto de média entre 6 da manhã e meia-noite no Ibope PNT da TV por assinatura. Na mesma faixa horária de competição, a GloboNews obteve 0,6 ponto. CNN Brasil, Record News e Band News empataram com 0,1 ponto.

O maior destaque na programação da Pan TV foi o programa Os Pingos nos Is, que já é sucesso no rádio. Obteve 0,8 ponto entre 18 horas e 20 horas, contra 1,1 da GloboNews. Quem também rendeu foi o Pânico, que conseguiu 0,3 ponto, contra 0,6 da GloboNews.

A queda da Globo é o maior símbolo de um novo tempo para o jornalismo e o entretenimento. A tendência é a fragmentação e a pluralidade de ideias. Quem não se adaptar ficará para trás.

Leia também “O tombo da velha mídia”

Jornal Nacional sobe o tom contra Bolsonaro em editorial

[Comentando:  o veneno que o jornalista Boner destila contra o presidente Bolsonaro é produzido pela angústia do ainda global, que o domina todo inicio de mês: não saber se será descartado no mês entrante ou no próximo - dúvida que nunca afligiu Cid Moreira, Sérgio Chapelin  e outros que o antecederam.
Uma sugestão para a Globo = algo tipo um 'tiro de misericórdia' antes de fechar as portas: reapresentar novelas da década de 70 e seguintes tipo Roque Santeiro, Bandeira 2, O Bem-amado, Saramandaia, A Fábrica  e outras - o custo é praticamente ZERO e o Ibope sobe Evereste.]
 

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Manual do Linchador Moderno - Guilherme Fiuza

Ilustração: Montagem/Shutterstock
Ilustração: Montagem/Shutterstock

Acusar alguém de homofóbico é pouco. Você precisa ir além. Pode continuar catando pretextos para afetar preocupações raciais, sexuais, ambientais, etc, mas cuidado para não terminar o serviço antes da hora. Hoje em dia, frases lindas contra o preconceito e a favor das minorias podem até soar como gafe — se você não conseguir prejudicar alguém com isso.

Para facilitar a atualização da sua conduta inclusiva (que inclui você nas panelas certas), segue aqui uma lista de cinco princípios éticos fundamentais ao alpinista moderno: 

Vigie seus vizinhos obsessivamente. Assim você aumentará suas chances de flagrá-lo indo do carro até o elevador sem máscara, ou jogando um papel fora da cesta de lixo, ou comendo carne vermelha na segunda-feira. Colha sua munição para denunciá-lo. Se você conseguir expulsá-lo do condomínio por motivos idiotas pode até virar herói do bairro; 


Fique atento ao que dizem os seus colegas de trabalho nos momentos de descontração. Você pode dar a sorte de flagrar um deles contando como foi sua dieta de emagrecimento e denunciá-lo por gordofobia. Não se esqueça de gravar a conversa. Aí você expõe na sua rede social e diz que a empresa não pode manter no quadro de funcionários uma pessoa horrível como aquela. Uma horda de linchadores educadíssimos com certeza vai aderir ao seu chamado e com certeza algum diretor covarde da empresa demitirá o seu colega, te transformando no herói do mês;

Vasculhe o passado dos seus amigos. Você haverá de encontrar algum registro — nem que seja um bilhete — com algum tipo de manifestação gravíssima para os dias de hoje, tipo “virei a noite e fui para o trabalho que nem um zumbi” (você pode transformar isso em declaração racista) ou então “cheguei em casa bêbado que nem um gambá” (você pode denunciar seu amigo por preconceito contra os gambás, desafiando-o a provar que esse animal gracioso e inofensivo para as mudanças climáticas tenha hábitos alcoólicos). Só descanse quando tiver espalhado geral que esse amigo querido por tanta gente era na verdade um ser abjeto, ou seja, só considere a sua missão cumprida quando ele não tiver mais ninguém na vida. Yes!

 Reserve pelo menos meia hora diária antes de dormir para bisbilhotar pessoas públicas e o que elas andaram dizendo (bisbilhotar relaxa). Nesse território está a sua Mega-Sena. E lembre-se: quem procura acha. Você pode alegar que há uma multidão nesse garimpo e não é muito provável que você, logo você, vá encontrar a pepita de ouro. Engano seu. Hoje em dia tem ouro pra todo mundo. Basta ter paciência — e não desanimar na primeira esquina do Facebook. “Fulana está linda.” Pronto! 
Se essa frase tiver sido postada, por exemplo, por um companheiro de time do Maurício Souza, você já sabe o caminho: avisa correndo à Fiat e à Gerdau que o meliante misógino foi pego em flagrante de assédio sexual e moral, portanto não merece mais viver em sociedade. 
Se for da seleção, conta logo ao Renan também, que ele desconvoca na hora. 
Fim de papo. Mais um CPF cancelado. Ai, que delícia de linchamento!

Por questão de ética, não vamos te esconder a verdade: um dia o linchado pode ser você. Quando isso acontecer, não hesite: bata o pé, esperneie e chore bem alto. Com um pouco de sorte, mamãe te escuta e te salva desse mundo mau.

Leia também “A repressão identitária”
 
Guilherme Fiuza,  colunista - Revista Oeste

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Mercado da morte no Everest



Cada vez mais turistas, mesmo sem preparo, se dispõem a pagar até R$ 130 mil para chegar ao topo do mundo. Nos últimos dias, quatro deles perderam a vida na aventura

Com seus recordistas 8.848 metros de altura, o Monte Everest, na fronteira entre o Tibete e o Nepal, representa um desafio à superação humana. Depois de vencido pela primeira vez, em 1953, o cume da cordilheira do Himalaia deixou de pertencer apenas aos sonhos de alpinistas profissionais e se tornou destino recorrente nas viagens de aventura, procurado inclusive por amadores. Nos últimos dias, uma sequência de tragédias colocou em xeque a idoneidade das operadoras que organizam a subida ao Everest.




Quatro pessoas morreram ao tentar chegar ao topo do mundo e, até o fechamento desta edição, outras duas estavam desaparecidas. “Muitos alpinistas sem qualquer experiência escalam o Everest todo ano e as empresas costumam usar equipamentos de má qualidade para baratear os pacotes e ganhar clientes”, disse à Reuters Ang Tshering Sherpa, presidente da Nepal Mountaineering Association, organização não-governamental que acompanha a prática do montanhismo na região. “Com isso, a empresa coloca os alpinistas em risco.”

O problema está na ambição desmedida das operadoras. Nos últimos anos, subir o Everest se tornou uma questão mercantilista. Qualquer um pode contratar as agências que promovem as escaladas, desde que o interessado disponha de pelo menos R$ 130 mil para adquirir os pacotes. “Escalar o Everest virou uma coisa muito comercial”, disse à ISTOÉ Thomaz Brandolin, alpinista brasileiro profissional que levou uma equipe à montanha em 1991. 
“Aceita-se cada vez mais pessoas sem experiência ou preparo físico. O sujeito tem dinheiro para pagar o equipamento, se inscreve e vai. Virou festa.”

A sanha financeira tem motivado  as empresas responsáveis pelas escaladas a levar para o monte grupos cada vez mais numerosos, sem o aumento proporcional de monitores. O filme “Evereste”, exibido no Brasil no ano passado, retrata uma situação parecida: a tragédia de maio de 1996, quando dois grupos de alpinistas comandados pelos experientes Scott Fischer (da Mountain Madness) e Rob Hall (da Adventure Consultants) fizeram uma expedição que resultou na morte de oito pessoas, incluindo Fischer e Hall.

Na semana passada, Subhash Paul subia pela primeira vez a montanha em um dos passeios que levam para o alto do Everest pelo menos 1.300 pessoas por ano. Não foi uma avalanche nem qualquer intempérie imprevista que tirou a vida do indiano de 43 anos. Paul morreu de hipobaropatia a chamada doença de altura –, mal que mata em grandes altitudes por falta de oxigênio. Antes de morrer, o alpinista estreante havia subido 8 mil metros. No dia anterior, a australiana Maria Strydom e o holandês Eric Arnold também não sobreviveram à escalada. 

A causa da morte foi a mesma de Paul. Segundo especialistas, a hipobaropatia ocorre apenas acima dos 2.400 metros de altitude, quando alpinistas desavisados entram em áreas que exigem oxigênio suplementar, ou decidem se arriscar sem o equipamento recomendado – ou sem equipamento suficiente para todos do grupo.

Na teoria, desde o ano passado o governo do Nepal só permite a subida para esportistas que já tenham alcançando o topo de outras montanhas com ao menos 6.500 metros. Mas a regra nunca chegou a ser implementada e o Ministério do Turismo afirma que não há nenhuma previsão para colocá-la em prática. “Nós precisamos manter a glória das escaladas ao Everest”, disse à CNN Mohan Krishna Sapkota, secretária adjunta do ministério.

Fonte: Ludmila Amaral